Identidade, interação social e seus impactos na sociedade
- Alexsandro Alves de Araujo
- há 5 dias
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Atualizado: há 3 dias
Este texto propõe uma reflexão sociológica introdutória sobre identidade, articulando diferentes perspectivas teóricas de caráter introdutório e reflexivo, não exaustivo.
1. A questão da semiótica e da percepção dos outro sobre nós
· Você já parou para pensar quem você é de verdade?
· Quem você acredita que é?
· E, talvez a pergunta mais difícil: como os outros te veem?
Essas três dimensões atravessam nossas experiências mais cotidianas. Elas aparecem quando entramos em um novo ambiente, quando somos avaliados na escola, no trabalho, pelas pessoas que estão a nossa frente ou nas redes sociais, quando buscamos reconhecimento ou quando somos rotulados. Muitas vezes, não somos tratados exatamente pelo que acreditamos ser, mas pelo modo como somos percebidos socialmente.
A Sociologia nos ajuda a compreender que a identidade não é algo natural, fixo ou puramente individual. Ela é construída socialmente, nas interações, nos olhares, nas expectativas e nos julgamentos que organizam a vida cotidiana. É nesse ponto que as contribuições de:
· Mead (2010),
· Goffman (2019),
· Berger & Luckmann (2014),
· Giddens (2016),
· Pierre Bourdieu (2014),
· Sartre (2020) se articulam para explicar quem somos, quem pensamos ser e como somos reconhecidos, ou limitados, socialmente.
Para Mead (2010), ninguém nasce com uma identidade pronta. Tornamo-nos sujeitos na convivência com os outros. Esse processo ele chama de self, a consciência de si construída socialmente.
As perguntas “Quem eu sou?”, “Como os outros me veem?” ou “Como me vejo?” não surgem no vazio. Elas são formadas na família, na escola, nos grupos de amizade, no trabalho e, hoje, de forma intensa, nas redes sociais.
Mead (2010), nos apresenta o “self”, e o que seria isto? Self é a consciência de si, construída socialmente. Ou seja, para o autor, o indivíduo não nasce com um self pronto, ele se forma nas interações sociais, especialmente por meio da linguagem e da comunicação simbólica. O self, portanto, é sempre social.

Mead (2010), explica que o self se constrói a partir da relação entre duas dimensões:
· o eu (I),
· e o mim (Me).
O mim: a sociedade dentro de nós.
O mim representa a sociedade internalizada. É a parte de nós que incorpora regras, normas, valores e expectativas sociais. Quando pensamos:
· “O que vão pensar de mim?”
· “Isso é adequado para esse momento?”
· “Como devo agir aqui em determinada ocasião?”
Ele permite o convívio social, o respeito às regras e o autocontrole. Por exemplo: quando um trabalhador tem vontade de falar durante uma reunião importante, mas se contém para não atrapalhar, esse controle não é natural, é aprendido socialmente. Isso é o mim em ação. O “mim” é aquilo que a sociedade espera de mim e que eu incorporo ao meu comportamento. O “mim”, não é um conflito interno, mas é gerado por um fator externo. Outra coisa, é importante destacar que o mim não é o ego freudiano.
Embora pareçam semelhantes, são conceitos distintos. O mim em Mead (2010), pertence à Sociologia e refere-se à internalização das normas sociais; o ego em Freud (2011), está ligado aos conflitos psíquicos internos entre desejo, realidade e moral. São campos diferentes, com objetivos diferentes.

Se o “mim” representa as regras, o “eu” representa a resposta criativa e espontânea do sujeito. O “EU” é a parte do self que age, responde e inova diante das situações sociais.Ele representa a iniciativa pessoal e a imprevisibilidade do comportamento humano.
Em termos simples: o “EU” é aquilo que faço antes de pensar nas regras.
É o “eu” que questiona, resiste, cria e age de maneira singular e se mostra na sociedade.
Mesmo conhecendo as normas da empresa, quando um trabalhador expressa uma opinião própria ou propõe algo novo, está mobilizando o “eu”. A identidade, portanto, não é fixa: ela surge da tensão permanente entre o “eu” e o “mim”, entre ação individual idiossincrática e estrutura social. Podemos ver na teoria dos papeis o seguinte:

Enquanto Mead (2010), explica como a identidade do “EU”, se forma, Goffman (2019) mostra como ela é apresentada socialmente. Para ele, a vida social funciona como um teatro. Em cada situação, desempenhamos papéis e construímos uma fachada para causar determinadas impressões nos outros. “Usamos varias máscaras”.
Não somos exatamente “falsos”, mas ajustamos nossa apresentação conforme o contexto: não agimos da mesma forma em casa, na escola, no trabalho ou nas redes sociais. Esse processo é chamado de gerenciamento de impressões.

Por exemplo: se um professor entra na sala de aula de bermudas e camiseta em um dia normal de aula todos na escola vão achar estranho a atitude do professor. Existe uma expectativa sobre o modo de como um professor deve se apresentar que já foi tipificado, de acordo com Berger e Luckmann (2014). A tipificação é um modo de construir ou descrever uma determinada construção simbólica. Por exemplo, quando pensamos em um jogador de futebol, como podemos descreve-lo? Como construímos uma imagem em nossa mente de como seria um jogador?
O problema surge quando essa fachada se torna rígida ou quando certos grupos são marcados negativamente por algumas características físicas ou simbólicas. É aqui que aparece o estigma, conceito central em Goffman (2019). Pessoas estigmatizadas são reduzidas a uma característica, física, moral ou social, e passam a ser vistas apenas por esse rótulo, o que afeta profundamente sua identidade e suas oportunidades.





De acordo com Goffman (2012), o estigma da aparência pode entrar em conflito com o reconhecimento da capacidade intelectual e artística, gerando uma incongruência que varia conforme o contexto em que o indivíduo se apresenta.

Conforme Goffman (2012), um indivíduo socialmente rotulado como malfeitor pode sofrer processos de afastamento e estigmatização por parte de seu grupo ao frequentar bibliotecas ou espaços culturais, uma vez que tais práticas entram em incongruência com a identidade social que lhe é atribuída.

Pessoas com altas qualificações podem sofrer preconceitos em trabalhar em funções que exigem baixas qualificações, por exemplo, um Doutor trabalhando como faxineiro. Goffman (2012),






Para Berger & Luckmann (2014), a realidade social é construída a partir de tipificações, modelos socialmente criados que definem como as pessoas devem ser vistas e agir. Cada tipificação carrega poder, independentemente de quem a ocupa.
Por exemplo, existe uma tipificação social de “professor”, “bom aluno”, “trabalhador ideal”. Esses modelos se tornam padrões legítimos e passam a orientar comportamentos, muitas vezes sem considerar aspectos psicológicos, sociais e culturais.
O que é sedimentação?
Em Berger e Luckmann (2014), a sedimentação é um processo pelo qual experiências, ações e significados sociais se fixam, se estabilizam e passam a ser tomados como “naturais” no cotidiano. Essas tipificações, quando repetidas e legitimadas pela sociedade, se sedimentam e se institucionalizam. Assim, as pessoas passam a agir de acordo com elas como se fossem naturais. Isso explica por que muitas vezes somos julgados não pelo que somos, mas pelo rótulo que carregamos.
Segundo Giddens (2016), a sociedade não existe de forma independente dos indivíduos. A partir da teoria da estruturação, o autor argumenta que as estruturas sociais são simultaneamente produto das ações humanas e, ao mesmo tempo, os meios que condicionam e orientam essas ações. Assim, o comportamento individual é socialmente estruturado, na medida em que se conforma a padrões aceitos coletivamente. Ao agir de determinada maneira, o indivíduo reforça esses padrões, contribuindo para sua legitimação e reprodução social, de modo que tais condutas passam a ser reconhecidas como modelos a serem seguidos pelos demais.
Nós internalizamos regras sociais e, ao agir, tendemos a reproduzi-las ou, em determinados contextos, a transformá-las. Esse movimento ajuda a explicar como a sociedade se mantém relativamente estável e, ao mesmo tempo, permanece aberta à mudança. Diante disso, coloca-se a questão: por que agimos do jeito que agimos?
Bourdieu (2014) desenvolve o conceito de habitus justamente para responder a esse problema, ao explicar como as estruturas sociais se inscrevem nos indivíduos sob a forma de disposições duráveis que orientam gostos, comportamentos e percepções. Diferentemente do simples “hábito”, o habitus não se refere a práticas conscientes ou a rotinas cotidianas, mas a esquemas incorporados de ação e pensamento, socialmente construídos e historicamente situados. Por operar de maneira predominantemente pré-reflexiva, o habitus atua como se fosse natural, contribuindo para a reprodução das desigualdades e hierarquias sociais, na medida em que os indivíduos tendem a agir conforme posições que lhes foram socialmente atribuídas.
É nesse ponto que a reflexão de Sartre (2020), aprofunda a análise ao deslocá-la para o plano da experiência subjetiva. Ao diferenciar o "ser-em-si" e o "ser-para-si", O autor enfatiza que o ser humano não é apenas determinado por aquilo que é objetivamente, mas também pela forma como se percebe e é percebido. O olhar do outro exerce papel central nesse processo, pois transforma o sujeito em objeto de julgamento, contribuindo para a interiorização de expectativas sociais. Assim, as disposições do habitus podem ser compreendidas não apenas como estruturas incorporadas, mas como vividas existencialmente, afetando a maneira pela qual o indivíduo se reconhece, se posiciona e age no mundo social.

Assim, a pergunta “Quem eu sou?” nunca está desligada da pergunta “Como sou visto?”. A identidade é sempre relacional.
Conclusão:
Quem somos, quem acreditamos ser e como somos percebidos pelos outros não constituem dimensões idênticas da identidade, mas se encontram profundamente interligadas. A identidade, longe de ser uma essência fixa ou puramente individual, é produzida nas interações sociais, atravessada por normas, expectativas, tipificações, estigmas e relações de poder que estruturam as possibilidades de reconhecimento social. Nesse sentido, os processos de construção identitária não operam apenas no plano subjetivo, mas possuem efeitos objetivos, ao delimitar quem é legitimado, quem é silenciado e quem dispõe de maiores ou menores oportunidades no espaço social.
Compreender a identidade como construção social permite problematizar a naturalização das diferenças e das desigualdades, ao evidenciar que aquilo que se apresenta como dado ou inevitável é, na realidade, historicamente produzido e socialmente mantido. Contudo, reconhecer os condicionamentos sociais não implica negar a dimensão da agência. Como enfatiza Sartre (2020), o sujeito, mesmo situado em condições objetivas que o limitam, permanece responsável por suas escolhas. A recusa em agir, refletir ou assumir as possibilidades abertas pela própria existência configura o que o autor denomina má-fé, isto é, a tentativa de escapar da liberdade atribuindo inteiramente ao meio a definição de si.
Assim, embora o meio social influencie decisivamente a formação da identidade, ele não a determina de forma absoluta. Entre estrutura e ação, interiorização e reflexão, reprodução e transformação, abre-se um espaço de tensão no qual o indivíduo pode tanto reiterar quanto questionar as normas que o constituem.
É precisamente nesse espaço que a Sociologia se afirma como instrumento crítico, ao revelar o caráter construído das identidades e, com isso, ampliar a consciência social sobre as possibilidades de mudança. O questionamento do que somos e do modo como nos tornamos quem somos não é apenas um exercício teórico, mas uma condição fundamental para a transformação das relações sociais.
À luz de Giddens (2016), Bourdieu (2014) e Sartre (2020), a identidade pode ser compreendida como resultado de uma tensão permanente entre estruturas sociais que moldam as disposições dos indivíduos, práticas que as reproduzem ou transformam e uma consciência que, mesmo situada e condicionada, permanece responsável por se posicionar diante do mundo e de si mesma.
Referências:
BERGER, P.; LUCKMANN, T. (2014). A construção social da realidade.
BOURDIEU, P. (2014). A reprodução.
FREUD, S. (2011). O ego e o id.
GOFFMAN, E. (2019). A representação do eu na vida cotidiana; Estigma.
GIDDENS, A. (2016). A sociologia de Anthony Giddens.
MEAD, G. H. (2010). Mente, self e sociedade.
SARTRE, J.-P. (2020). Conceitos fundamentais.



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