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A ontologia da escolha em Sartre: Existência, Essência e Liberdade

Atualizado: 31 de jan.

A ontologia de Sartre (2020) parte da situação concreta do sujeito, não como uma categoria abstrata ou universal, mas como um ser incorporado, singular e situado no mundo. Cada indivíduo é um sujeito e só pode conhecer diretamente o sujeito que é. O existir, nesse sentido, implica sempre um projeto: o sujeito se lança no mundo, no sentido etimológico do termo existir (ex-sistere), isto é, sair de si em direção ao mundo.


Nesse mundo, os objetos se apresentam ao sujeito. Um exemplo simples é um abridor de cartas, que existe em um mundo no qual também habita o corpo físico do sujeito. Em um primeiro momento, esse objeto se apresenta como um "ser-para-mim", isto é, como algo que aparece à consciência a partir da minha experiência subjetiva (Sartre, 2020, p. 249).


Os objetos do mundo, no entanto, desaparecem e reaparecem, mantendo sua identidade independentemente da minha percepção imediata. Eles não deixam de existir quando não são mais vistos. Uma vez percebidos, permanecem como formas reconhecíveis, inclusive na memória, o que indica que possuem uma existência independente da consciência que os apreende. Sartre (2020) denomina esse modo de existência de "ser-Em-si" (être-en-soi).


Quando pego o abridor de cartas em minhas mãos, ele é simultaneamente um ser-Em-si e um ser-para-mim. Quando não está mais presente à minha percepção, continua existindo como ser-Em-si. Trata-se de um objeto no mundo cuja essência precede a existência: antes de existir materialmente, ele já havia sido concebido na mente de quem o criou, pensado para uma finalidade específica e produzido conforme essa intenção. Sua essência, portanto, antecede sua existência concreta.


Com o ser humano ocorre exatamente o contrário. Para Sartre (2020), a existência precede a essência. O ser humano primeiro existe e, somente depois, por meio de suas escolhas e ações, torna-se alguma coisa. Não há uma natureza humana pré-determinada, nem uma finalidade inscrita previamente no sujeito. O indivíduo constrói a si mesmo ao longo de sua existência.


É nesse contexto que o autor formula uma de suas afirmações mais conhecidas:

Sartre (2020): “O homem está condenado a ser livre.”
Sartre

Essa condenação à liberdade implica profundas consequências existenciais e éticas. Em primeiro lugar:


  • Não existe um “manual” moral universal capaz de indicar, de forma absoluta, o que é certo ou errado em cada situação.

  • Em segundo lugar, toda escolha individual possui um peso coletivo, pois, ao escolher, o sujeito propõe uma determinada imagem de humanidade.

  • Por fim, a liberdade não é confortável: ela produz angústia, medo de errar, culpa antecipada, insegurança e a sensação constante de estar “sem chão”.


Por essa razão, nenhuma decisão gera satisfação plena. Sempre permanece a consciência de que poderíamos ter sido outra coisa, caso tivéssemos escolhido de modo diferente. Diante dessa angústia, muitos indivíduos preferem não escolher. Trata-se de uma espécie de “lei do menor esforço”, na qual se evita o risco do erro, o sofrimento da dúvida e a responsabilidade pelas consequências da própria decisão.


O medo de escolher “errado” e carregar essa culpa ao longo da vida pode levar o sujeito a uma postura contemplativa diante da existência, abrindo mão de sua agência e permitindo que outros decidam por ele. Quando isso ocorre, o indivíduo abdica de sua condição de ser-para-si e passa a viver como um "ser-Em-si", isto é, como um objeto moldado pela vontade alheia, criado para cumprir uma finalidade que não escolheu.


Um exemplo clássico é o do jovem que deseja ser cantor, mas aceita tornar-se médico para satisfazer o desejo do pai. Ao renunciar à própria escolha e assumir uma identidade imposta, o sujeito passa a existir como um objeto funcional, semelhante a um instrumento cuja finalidade foi definida por outro. Sartre (2020) denomina esse modo de agir de "má-fé" (mauvaise foi).


Essa situação pode ser comparada à de alguém que viaja no banco de trás de um carro, observando a paisagem pelas janelas enquanto outra pessoa dirige e escolhe o caminho. Embora o passageiro esteja presente, ele não assume a direção da própria trajetória.


No primeiro caso, o abridor de cartas exemplifica a ideia de que a essência precede a existência, pois sua finalidade foi definida antes de sua criação. No segundo caso, o ser humano existe primeiro e somente depois constrói sua essência por meio das escolhas que realiza. Quando alguém vive segundo um projeto que não escolhe, como no exemplo do médico que atende ao desejo do pai, sua essência passa a existir antes de sua própria existência, assim como ocorre com os objetos.


Diferentemente das coisas, para o autor, o ser humano é um projeto aberto. “Trata-se, portanto, de uma concepção metafísica sobre as características originárias das coisas e dos seres” (Sartre, 2010). Permitir que outros escolham por nós é, segundo o autor, agir de má-fé e negar a própria liberdade.


Conclusão:


A liberdade de escolher é algo que todos temos, mas ela também é difícil de lidar. Não fazemos escolhas isoladamente: nossas decisões são influenciadas pela família, amigos, escola, trabalho e pela sociedade em geral. Muitas vezes, abrimos mão da nossa própria vontade para seguir o que os outros esperam de nós, isso é o que Sartre chama de má-fé. Entender isso ajuda a ver que a liberdade não é só algo pessoal, mas também social. Nossas escolhas moldam quem somos, mas também mostram o conflito entre o que queremos e o que a sociedade espera de nós.


Sartre

Sartre

Sartre

Sartre

Sartre

Sartre



Bibliografia:


SARTRE, J.-P. (2020). Conceitos fundamentais.


Conteúdo complementar: Animador Pobre. Disponível em: https://linktr.ee/animadorpobre. Acesso em: 11 jan. 2026. Instagram • Mensagens

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