Bell Hooks e a construção de comunidades abertas na prática docente.
- Alexsandro Alves de Araujo
- 14 de jun. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 4 de mai.
Alexsandro Araujo
A educação como prática da liberdade é um
jeito de ensinar que qualquer um pode aprender.
Bell Hooks

A construção de ambientes de aprendizagem inclusivos e dialógicos constitui elemento central nas propostas pedagógicas que visam à superação das formas tradicionais de ensino e à emancipação dos sujeitos. Essa abordagem, inspirada fundamentalmente na obra de Paulo Freire (1987; 2014), propõe uma educação como prática da liberdade, rompendo com modelos hierárquicos e excludentes que historicamente marcaram o processo educacional.
Em Ensinando a Transgredir: A Educação como Prática da Liberdade, bell hooks (2013) não apenas ecoa Freire, mas radicaliza sua perspectiva ao situar a sala de aula como um espaço de resistência e transgressão. Para hooks, a pedagogia engajada é um chamado à ação:
A sala de aula, com todas as suas limitações, continua sendo um local de possibilidades. Nesse campo de possibilidades, temos a oportunidade de trabalhar pela liberdade, de exigir de nós e de nossos camaradas uma abertura de mente e coração que nos permite encarar a realidade para além do que sabemos (HOOKS, 2013, p. 115).
Nesse contexto, o processo educacional assume uma dimensão política, emocional e corporal, na qual professores e estudantes colaboram na construção do conhecimento de maneira dialógica, crítica e afetiva.
Para Freire (1987), a educação tradicional, o modelo "bancário", frequentemente reproduz o status quo, ao falhar em estimular o pensamento autônomo e a reflexão crítica, concentrando o poder nas mãos dos grupos dominantes e perpetuando desigualdades. hooks (2013) complementa essa análise com sua vivência como mulher negra em espaços acadêmicos dominados pela branquitude, afirmando que, nesse modelo, “os alunos aprendem que apenas alguns vozes são autorizadas” (p. 173). A transgressão, portanto, começa quando se ousa falar e ser ouvido.
Segundo Freire (2014), a libertação dos oprimidos demanda uma prática educativa centrada na conscientização e no diálogo horizontal, permitindo que educador e educandos se humanizem mutuamente. A perpetuação da hierarquia, como afirma o autor, enfraquece o aluno ao conduzi-lo à aceitação passiva da ordem social opressora. Progresso, para Freire, exige transgressão: é a ruptura com o imobilismo que perpetua o silêncio.
Nesse sentido, hooks (2013) aprofunda a perspectiva freireana ao declarar: “A educação como prática da liberdade é um jeito de ensinar que qualquer um pode aprender” (p. 15). Mas ela vai além: essa prática exige que o professor também esteja disposto a ser vulnerável, a correr riscos e a “estar presente de corpo e alma”. As comunidades abertas de aprendizado propostas pela autora flexibilizam as fronteiras hierárquicas, reconhecendo todos como participantes ativos. Inspirada em Freire, hooks critica o modelo bancário e insiste que o ensino deve integrar razão e emoção.
Como ela escreve:
Não podemos construir uma comunidade de aprendizado se ignoramos o papel da emoção no processo educacional. Muitos de nós entram na sala de aula sufocando o coração (HOOKS, 2013, p. 190).
O estabelecimento de uma comunicação aberta favorece o respeito mútuo e a validação das experiências pessoais, rompendo os silenciamentos impostos por estruturas de opressão baseadas em gênero, raça e classe.
hooks (2013) é incisiva:
Fazer da sala de aula um ambiente onde todos possam crescer significa que não há humilhação (p. 207). Acolher o estudante em sua totalidade, sua história, sua dor, sua raiva, sua esperança, é condição para uma educação verdadeiramente libertadora.
Complementarmente, Mészáros (2005) insere-se nesse debate ao afirmar que a educação precisa ser pensada para além dos interesses do capital, restringindo o desenvolvimento crítico e perpetuando a subordinação econômica. A educação emancipada deve formar sujeitos capazes de intervir ativamente na realidade.
A partir dessas contribuições, delineiam-se propostas concretas para a transformação das práticas pedagógicas:
Propostas Pedagógicas Inspiradas em Hooks (2013) | Descrição |
Proposta 1: Diálogo horizontal | O docente atua como mediador, promovendo um ambiente onde todos possam expressar ideias e emoções. hooks (2013) defende que “o diálogo não é mera troca de palavras, mas um ato de criação e recriação” (p. 152). Metodologias: rodas de conversa, debates, aulas em círculo e trabalhos colaborativos. |
Proposta 2: Validação das experiências individuais | Incorporar as vivências sociais, culturais e afetivas dos estudantes ao planejamento. hooks (2013) ensina que “os alunos que foram silenciados na escola precisam aprender que sua história, experiência e voz têm valor” (p. 66). Métodos: história oral, projetos interdisciplinares, diários de aprendizagem. |
Proposta 3: Inclusão e diversidade | A sala de aula deve ser um espaço plural que acolha diferentes vozes, especialmente as marginalizadas. hooks (2013) alerta: “A diversidade não é um adorno; é uma prática de romper com a supremacia branca e o patriarcado” (p. 91). Uso de materiais diversos, debates sobre gênero, raça e classe, e produção de conhecimento a partir das margens. |
Proposta 4: Reflexão crítica e transformação social | Estimular o pensamento crítico vinculado a problemas reais, mas sem separar razão e emoção. Para hooks (2013), “o prazer no ensino é uma força de resistência contra a alienação” (p. 16). O currículo deve dialogar com o contexto local e incentivar propostas de intervenção social, formando sujeitos engajados. |
Dessa forma, a contribuição de bell hooks (2013), em diálogo com Freire (1987; 2014) e Mészáros (2005), oferece um referencial robusto para práticas pedagógicas libertadoras. Trata-se de uma pedagogia fundamentada no diálogo, no afeto, na valorização das experiências dos educandos e no enfrentamento das múltiplas opressões estruturais.
A educação, nesse horizonte, é concebida como ato de amor, risco e transgressão, um chamado à vida plena.
Como bell hooks (2013) conclui:
O amor e a educação são, juntos, a base para qualquer possibilidade de transformação social” (p. 204). Cabe aos professores assumir um papel ativo na formação de sujeitos críticos, emancipados e capazes de transformar a sociedade.
REFERÊNCIAS
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.
HOOKS, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
MÉSZÁROS, István. Educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2005.