Devaneios sobre o poder
- Alexsandro Alves de Araujo
- 8 de dez. de 2024
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Atualizado: há 1 dia
Alexsandro Alves
Segundo Michel Foucault, o poder não atua unicamente de forma vertical, de cima para baixo, ele tem uma certa capilaridade a qual o autor descreve como uma força que tem o poder de exercer influência em todas as direções e sentidos. A predominância do poder ou de uma força sobre outra depende de qual é mais eficaz em um determinado momento. Por exemplo, um ímã pode puxar um pedaço de metal para cima, enquanto a gravidade o empurra para baixo; o resultado depende da intensidade das forças envolvidas. Assim é o poder sob a perspectiva do autor!

Para Foucault, o objetivo do poder é controlar os corpos, tornando-os dóceis e obedientes. Um exemplo cotidiano disso é como um simples olhar pode constranger e alterar o comportamento de alguém.
Pierre Bourdieu, outro autor importante, fala sobre a teoria do campo, que é o espaço social onde regras e relações de poder se estabelecem.
Para permanecer no campo, é preciso conhecer e dispor do capital necessário para atuar livremente, alem de respeitar essas regras, como ocorre em um campo de futebol, onde qualquer desvio de conduta é passível de punição. Ele também introduz os diferentes tipos de capital, econômico, social, cultural e simbólico, que podem ser convertidos em poder dentro desses campos. Esses capitais influenciam decisões e comportamentos de maneira cultural, social, política e econômica. Um exemplo é a moda, que atua como força cultural: mesmo acreditando em sua liberdade de escolha, o indivíduo evita usar certas roupas para não ser ridicularizado pelo grupo.

Manuel Castells e Mark Granovetter contribuem para entender o poder na formação de grupos, como as redes sociais não digitais. Castells aponta que certos indivíduos, os "nós centrais", acumulam poder ao controlar informações e influenciar decisões, enquanto marginalizam outras vozes. Esses indivíduos geralmente possuem altos capitais simbólicos, como experiência ou status, que reforçam sua posição de poder.
Já o poder coercitivo, descrito por Lebrun, age sobre a dependência e vulnerabilidade dos indivíduos. Esse poder não precisa de força física; pode operar por meio de chantagens emocionais, como ocorre em relações pessoais ou por meio do prestigio de uma pessoa considerada importante.
O poder paralelo, por sua vez, desafia a legitimidade das instituições políticas e jurídicas, surgindo como resposta à falta de representatividade nas estruturas formais.

Elton Mayo, em sua teoria das relações humanas, reforça que os grupos têm grande influência dentro das empresas, determinando ritmos e comportamentos. Qualquer desvio das normas grupais pode levar à punição ou exclusão, o que revela como o poder se manifesta até nos menores detalhes das interações sociais.
Estudar sociologia nos faz perceber que, embora os fenômenos de poder se reinventem, as lógicas de dominação permanecem. O poder está presente em todas as relações sociais, sejam elas públicas ou privadas. Ter consciência disso não nos torna imunes às suas implicações, mas nos ajuda a compreender e lidar melhor com as dinâmicas sociais. Afinal, empresas e instituições são compostas por pessoas, e é nelas que o poder se manifesta em sua essência.
Conclusão
Ao estudar o poder a partir da Sociologia, percebemos que ele não está presente apenas nos governos, nas leis ou nas grandes instituições. O poder aparece nas relações do dia a dia, nos grupos sociais, nas empresas, nas escolas e até em gestos simples, como um olhar que constrange ou influencia o comportamento de alguém. Como explica Foucault (1979), o poder circula por toda a sociedade e atua de várias formas, moldando atitudes e controlando os corpos e comportamentos (FOUCAULT, 1979).
Pierre Bourdieu ajuda a entender que a sociedade funciona como diferentes “campos”, nos quais as pessoas disputam espaço e reconhecimento. Para isso, utilizam diferentes tipos de capital, como dinheiro, conhecimento, contatos sociais e prestígio. Muitas vezes, mesmo achando que estamos escolhendo livremente, nossas decisões são influenciadas pelo grupo ao qual pertencemos, como acontece com a forma de se vestir ou de se comportar para evitar críticas ou exclusão (BOURDIEU, 1989).
Manuel Castells e Mark Granovetter mostram que o poder também se organiza por meio das redes sociais e dos grupos. Algumas pessoas ocupam posições centrais nessas redes e conseguem influenciar decisões, controlar informações e orientar o comportamento dos outros (CASTELLS, 1999; GRANOVETTER, 1973). Já Gérard Lebrun explica que o poder pode agir de forma coercitiva, explorando a dependência emocional, o medo ou o prestígio de alguém, sem precisar usar violência física (LEBRUN, 1981).
Elton Mayo reforça que, dentro das empresas e organizações, os grupos exercem grande influência sobre os indivíduos. Quem não segue as regras do grupo pode ser punido ou excluído, o que mostra como o poder está presente até nas pequenas interações do cotidiano (MAYO, 2003).
Dessa forma, a Sociologia nos ajuda a compreender que o poder está em todas as relações sociais. Ter consciência disso não nos livra completamente de sua influência, mas nos torna mais atentos e críticos diante das desigualdades, das formas de dominação e das regras que organizam a vida em sociedade. Entender o poder é um passo importante para agir de maneira mais consciente no mundo social.
Referências Bibliográficas
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
GRANOVETTER, Mark. The Strength of Weak Ties (em português: A força dos laços fracos). American Journal of Sociology, v. 78, n. 6, p. 1360-1380, 1973.
LEBRUN, Gérard. O que é poder. São Paulo: Brasiliense, 1981.
MAYO, Elton. Problemas humanos de uma civilização industrial. São Paulo: Atlas, 2003.





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