top of page

NARCOPENTECOSTALISMO, A INTIMIDADE COM O SAGRADO E O PROFANO: Reflexões sobre fé, crime e cultura no Brasil

Atualizado: há 4 dias

Alexsandro Araujo


1. A religiosidade brasileira entre a intimidade e a reverência


Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda (1995) observa que o tratamento dado às divindades no catolicismo brasileiro difere profundamente daquele encontrado em outras tradições religiosas. Enquanto povos como os japoneses mantêm uma distância ritualística e formal mesmo em relação às suas próprias divindades xintoístas, uma reverência que se estende às relações humanas,, o brasileiro, segundo o autor, está distante dessa noção ritualística da vida.


Cumprimento Japonês

Parafraseando Holanda, essa característica de pouca formalidade vem do “jeito descerimonioso de viver e de se expressar” do brasileiro, do homem simples, hospitaleiro e generoso. O Brasil teria dado ao mundo o “Homem Cordial”, um cidadão acolhedor, sempre disposto a ajudar e que acredita piamente em Deus.


Holanda adverte, porém, que essas virtudes não devem ser confundidas com “boas maneiras” ou civilidade no sentido europeu do termo; são, antes, “expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante” (Holanda, 1995, p. 147).

Esse modo de enxergar o mundo também se refletiu no culto às divindades e no tratamento religioso, pessoal e familiar. O uso recorrente do diminutivo, “santa Teresinha” para Teresa de Lisieux, “Nazinha” para Nossa Senhora de Nazaré, aproxima o sagrado do cotidiano doméstico. O brasileiro, segundo Holanda, sente-se incomodado com situações de reverência prolongada diante de um superior; prefere formas de tratamento que não impeçam a possibilidade de um convívio familiar. Na religião, esse traço se manifesta na busca por um Deus íntimo, um “amigo familiar”, em contraste com o “Deus palaciano” das grandes catedrais europeias.


2. Da proximidade afetiva à ambiguidade moral


Até esse ponto, Holanda descreve um fenômeno cultural. O passo sociológico que este texto busca dar é investigar as implicações normativas dessa proximidade com o divino. Quando a relação com Deus e os santos é pautada pela intimidade e pela flexibilidade, o que acontece com os limites entre o permitido e o proibido, entre o sagrado e o profano?


Santo Antonio

Observa-se que a mesma informalidade que humaniza a fé também pode relativizar a doutrina. Se Deus é compreendido como alguém próximo, compreensivo e disposto a “relevar” falhas humanas, então ações que, em outras tradições religiosas mais institucionais e formalizadas, seriam imediatamente condenadas podem ser reinterpretadas como aceitáveis ou mesmo justificáveis diante das circunstâncias.


Essa ambiguidade não é, por si só, uma patologia. Em condições normais, a religião próxima e afetiva opera como um recurso de resiliência e esperança. Contudo, em contextos de pobreza extrema, violência estrutural e ausência do Estado, essa mesma flexibilidade pode ser instrumentalizada, seja por indivíduos que buscam redenção, seja por organizações criminosas que usam a fé como mecanismo de legitimação e controle social.


3. Evidências contemporâneas: facções, evangélicos e a guerra contra terreiros


Casos recentes no Rio de Janeiro ilustram esse processo de forma contundente. A associação entre facções criminosas e lideranças evangélicas não é marginal; ela se organiza territorial e simbolicamente. A chamada “Tropa de Arão”, por exemplo, domina há anos uma região de comunidades conhecida como “Complexo de Israel”, referência direta à Terra Prometida bíblica. Nessa facção, a conversão e a prática religiosa específica tornam-se critérios para adesão e permanência (UOL, 2024).


Vista do Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, durante operação policial. A região é controlada pela facção Tropa de Arão, que adota simbologia e práticas evangélicas como critério de adesão. (Fonte: Complexo de Israel, na Zona Norte do Rio, é alvo de operação da PM. O Globo. Acesso em 04/05/2026)


Nesse contexto, a religião não é apenas um consolo, mas um instrumento de justificação e recrutamento. O maniqueísmo presente em certas vertentes evangélicas, a separação radical entre o bem e o mal, é mobilizado para justificar atos violentos: traficantes invadem e destroem terreiros de candomblé sob a alegação de que estão combatendo “o inimigo”, “coisas do diabo”.


Terreiro de candomblé destruído no RJ
Terreiro de candomblé destruído no RJ

Terreiro de candomblé destruído na Zona Norte do Rio de Janeiro, após incursão de traficantes evangélicos que associam as religiões de matriz africana ao “mal”.


Essa destruição não é um desvio individual; é uma prática coletiva que encontra respaldo na leitura militarizada da fé.


4. Pobreza, destino e a relativização do crime


Para muitos jovens em situação de vulnerabilidade, a entrada no tráfico é menos uma “escolha” do que uma coerção da sobrevivência. Nessas condições, a religião oferece um duplo movimento: redenção futura (a esperança de um milagre que permita sair do crime) e justificação presente (interpretar o próprio envolvimento com o tráfico como parte de um destino permitido ou mesmo desejado por Deus).


Assim, não é que a religiosidade brasileira “cause” o crime. O argumento sociológico é mais preciso: a estrutura simbólica da informalidade religiosa, um Deus próximo, compreensivo e flexível, cria um espaço interpretativo onde atos ilícitos podem ser ressignificados como necessários, transitórios ou até mesmo sagrados, desde que a fé pessoal não seja negligenciada. Essa ressignificação é particularmente potente em ambientes onde o Estado falha em oferecer direitos básicos e onde a violência se naturaliza como cotidiana.


5. Conclusão:


O que os exemplos da Tropa de Arão e da destruição de terreiros de candomblé revelam não é uma "deturpação" acidental da fé, mas sim uma potencialidade latente na própria estrutura da religiosidade brasileira descrita por Holanda. A intimidade com o divino, a informalidade no trato com o sagrado e a rejeição a formas rígidas de reverência institucional tornam a religião plasticamente adaptável a diferentes contextos, inclusive aqueles marcados pela ilegalidade e pela violência.


Dito de outro modo: a mesma flexibilidade que permite ao brasileiro chamar Deus de “amigo” e tratar santas pelo diminutivo é a mesma que permite a um traficante justificar seus atos como estando sob a mira de um Deus compreensivo. Não há contradição lógica para o agente; há, sim, uma coerência interna no uso da fé como recurso narrativo de autolegitimação.


A informalidade religiosa brasileira não produz o crime, mas produz um ambiente simbólico no qual a fronteira entre o lícito e o ilícito se torna permanentemente negociável. O sagrado não está fora ou acima do crime; ele pode ser mobilizado para dentro dele, servindo tanto como consolo quanto como álibi. É nesse entrelaçamento que se revela a ambiguidade moral estrutural da religiosidade no Brasil, uma ambiguidade que não é um defeito, mas um traço constitutivo, e que exige ser analisada sem moralismo, mas com rigor sociológico.


Bibliografia e Referências:


 

HOLANDA, S. B. (1995). Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras.


[1] Bandeira de Israel, guerra santa: o que se sabe sobre a 'facção evangélica'. Fonte: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimasnoticias/2024/03/13/tropa-de-arao-o-uso-da-religiao-como-escudo-para-a-pratica-de-crimes-no-rj.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 13/03/2024.

 

[1] Vida Loka (parte 1) Racionais MC's. Fonte: Vida Loka (parte 1) - Racionais MC's - LETRAS.MUS.BR. Acesso em 13/03/2024.

 

[1] Bandeira de Israel, guerra santa: o que se sabe sobre a 'facção evangélica'. Fonte: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimasnoticias/2024/03/13/tropa-de-arao-o-uso-da-religiao-como-escudo-para-a-pratica-de-crimes-no-rj.htm?cmpid=copiaecola. Acesso em 13/03/2024.


Comentários


bottom of page