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REFLEXÕES SOBRE RACISMO ESTRUTURAL E PRECONCEITO NO BRASIL: Uma análise crítica

Atualizado: 16 de mai.

Racismo no Brasil
ONU: racismo no Brasil é "estrutural e institucionalizado"

Alexsandro Araujo


Resumo: Este ensaio aborda sobre a natureza multifacetada do racismo no Brasil, investigando como as clivagens de raça e classe operam na manutenção de hierarquias sociais. A partir do arcabouço teórico de Sílvio Almeida, Pierre Bourdieu e Darcy Ribeiro, discute-se o papel do habitus, do capital estético e da violência simbólica na blindagem dos espaços de distinção das elites brasileiras. Por meio de uma análise comparativa entre o fenômeno dos "rolezinhos" e a espetacularização do "mendigo gato", o trabalho problematiza a falácia da meritocracia e demonstra como o racismo institucional e estrutural se reproduz normativamente, camuflado sob a égide do preconceito individual e do daltonismo racial.


1. O ethos colonial e a gênese da distinção classista


A formação sociocultural brasileira é marcada por uma persistente herança colonial que orienta a autoimagem de suas classes dominantes. Na célebre construção literária de João Ubaldo Ribeiro em Viva o Povo Brasileiro, a personagem Amleto Henrique Ferreira-Dutton sintetiza a cosmovisão de uma elite oligárquica que se percebe como um "europeu transplantado", segregando a massa trabalhadora, mestiça e negra, nos seguintes termos:

“Mas, vejamos bem, que será aquilo que chamamos de povo? Seguramente não é essa massa rude, de iletrados, enfermiços, encarquilhados, impaludados, mestiços e negros. A isso não se pode chamar um povo, não era isso o que mostraríamos a um estrangeiro como exemplo de nosso povo. O nosso povo é um de nós, ou seja, um como os próprios europeus. As classes trabalhadoras não podem passar disso, não serão jamais povo. Povo é raça, é cultura, é civilização, é afirmação, é nacionalidade, não é o rebotalho dessa mesma nacionalidade. Mesmo depuradas, como prevejo, as classes trabalhadoras não serão jamais o povo brasileiro, eis que esse povo será representado pela classe dirigente, única que verdadeiramente faz jus a foros de civilização e cultura nos moldes superiores europeus, pois quem somos nós senão europeus transplantados?”. 
Livro Trabalho e vadiagem

Essa violência simbólica original reverbera na estrutura contemporânea. Como aponta Lúcio Kowarick em Trabalho e Vadiagem, a transição para o mercado de trabalho livre não superou a lógica da exclusão, mas reconfigurou-a, submetendo as classes populares a condições precárias de existência e a um processo de subumanização alimentado pelo preconceito. A desigualdade social brasileira, portanto, é indissociável da cor da pele e da desvalorização sistemática da força de trabalho das populações racializadas.


2. A sofisticação do racismo: da psicologização à estrutura

Para apreender a complexidade desse arranjo, é imperativo recorrer à tripartição conceitual proposta por Sílvio Almeida, que divide o racismo em três dimensões interdependentes e hierárquicas: a individualista, a institucional e a estrutural.

2.1. Matriz dimensional do racismo

Nível / Dimensão

Escopo de Análise

Mecanismo de Operação

Expressão Fenomenológica (Exemplos no Texto)

 

1. Racismo Estrutural (Nível Macrossociológico)

 

 

Estrutura econômica, política e histórica da sociedade.

Determina as posições de poder e a distribuição de recursos escassos antes mesmo das interações individuais.

A naturalização da miséria da população negra; a ideologia meritocrática e o discurso do colorblindness para barrar reparações históricas.

 

 

 

2. Racismo Institucional (Nível Mesossociológico)

 

Instituições públicas (Estado, Judiciário) e privadas (Empresas, Shoppings).

Normas, regulamentos e procedimentos burocráticos "neutros" que reproduzem a hegemonia de um grupo dominante e filtram os corpos.

A ação de segurança privada no caso dos "Rolezinhos"; a filtragem racial corporativa; a ausência de diversidade nos altos escalões do poder.

 

 

 

3. Racismo Individual (Nível Microssociológico)

 

Esfera da subjetividade, da psicologia e das relações interpessoais.

Manifestações comportamentais imediatas, frequentemente minimizadas pela sociedade como mero "preconceito" ou preferência estética.

A atração e comoção pública gerada pelo capital estético europeu no caso do "Mendigo Gato"; ofensas e discriminações diretas.

Fonte: Tabela elaborada pelo autor, 2026.


3. Conflitos epistemológicos no espaço urbano: habitus e capital estético


A imbricação entre raça, classe e espaço geográfico ganha contornos nítidos quando contrastamos dois episódios emblemáticos da crônica urbana recente: o fenômeno dos "rolezinhos" nos shoppings centers e a comoção midiática em torno do denominado "mendigo gato". Ambos os casos revelam que os critérios de classificação social no Brasil transcendem o fator econômico estrito, exigindo o que Pierre Bourdieu define como habitus de classe.


Quadro sobre habitus e capital estético

Critério de Análise

Caso 1: Os Rolezinhos

Caso 2: O "Mendigo Gato"

Perfil do(s) Sujeito(s)

Jovens pretos, pardos e periféricos.

Homem branco, olhos claros, em situação de rua.

Elemento de Consumo

Roupas e marcas caras (Ostentação).

Trapos, sem bens materiais.

Reação Social

Marginalização, medo e repressão policial.

Sensibilização, comoção e ofertas de emprego (modelo).

Salvo-Conduto

Nenhum. O "habitus" e a cor anularam o consumo.

A Estética/Fenótipo Europeu. Absorvido pela elite.

Fonte: Tabela elaborada pelo autor, 2026.

3.1. O "rolezinho" como profanação do espaço de distinção

No episódio dos "rolezinhos", jovens negros e periféricos tentaram operar um mimetismo de classe, apropriando-se de signos de consumo de luxo, a chamada "ostentação", para circular em espaços historicamente interditados às classes populares. Contudo, a rejeição imediata a essa presença revela que a ordem socioespacial brasileira não se pauta exclusivamente pela capacidade de compra. Para compreender o fracasso desse mimetismo, torna-se indispensável resgatar a formulação de Pierre Bourdieu (1992), que recupera a clássica distinção weberiana entre classe e status:

"Ao constatar que o poder econômico puro e simples e sobretudo, 'a força nua do dinheiro' não constituem, necessariamente, um fundamento reconhecido do prestigio social, Max Weber distingue a classe social enquanto um grupo de indivíduos que, por partilharem a mesma 'situação de classe', isto é, a mesma 'situação de mercado', possuem as mesmas chances típicas no mercado de bens e de trabalho, as mesmas condições de existência e de experiencias pessoais, e os grupos de status (Stande) que são homens definidos por uma certa posição na hierarquia da honra e do prestigio" (BOURDIEU, 1992, p. 14).

A transposição desse arcabouço para a realidade nacional demonstra que a "força nua do dinheiro" é insuficiente para rasgar o véu da segregação. À luz da sociologia de Bourdieu, evidencia-se que o mero acesso ao capital econômico não se traduz automaticamente em legitimidade social. Desprovidos dos códigos de distinção dominantes, o habitus desses jovens, inscrito de forma indelével na sua corporalidade, gestualidade e fenotipia, denunciou-os imediatamente como corpos desviantes no "templo do consumo".


Por conseguinte, a reação virulenta dos shopping centers, que prontamente acionaram um pesado aparato de segurança privada e repressão policial, transcende a mera salvaguarda da ordem patrimonial. Trata-se, fundamentalmente, de uma gestão biopolítica do espaço urbano que tangencia a mecânica da necropolítica, formulada por Achille Mbembe (2018). Sob esse prisma, o racismo institucional passa a operar como uma tecnologia soberana de filtragem colonial, ditando quem possui o direito universal de livre circulação e quem deve ser confinado à categoria do "outro" perigoso, um corpo cuja exclusão, vigilância e invisibilidade social são normativamente legitimadas para salvaguardar a estética e a segurança ontológica da branquitude.

3.2. O "mendigo gato" e a rentabilidade da branquitude

Mendigo gato

Em contrapartida, a superexposição do homem branco em situação de rua evidencia o funcionamento do preconceito individual indireto e a seletividade da empatia social. A sociedade brasileira, historicamente habituada e apática (blasé) diante da miséria que consome corpos negros e periféricos, uma situação naturalizada pelo racismo estrutural, manifestou profundo choque moral diante da vulnerabilidade de um indivíduo de traços europeus e olhos claros.

Conforme assevera Jessé Souza (2019), os recursos escassos em disputa na sociedade moderna não são apenas materiais, mas também imateriais, incluindo o prestígio, o charme e a beleza. Neste caso, a estética eurocêntrica funcionou como um capital simbólico de alta rentabilidade. A mobilização social e as ofertas de emprego como modelo basearam-se na premissa implícita de que aquele corpo, devido à sua fisionomia europeia, "não pertencia" à sarjeta. A branquitude operou, portanto, como um salvo-conduto para a mobilidade social ascendente, comprovando que a estética dominante é um patrimônio de classe capaz de subverter a própria condição de miséria material.


4. A reprodução normativa do racismo institucional

Rolezinhos

As instituições públicas e privadas moldam o comportamento humano e normatizam as preferências sociais através de regras que parecem desprovidas de viés racial. Contudo, é fundamental desmistificar a aura de neutralidade dessas organizações. Uma empresa, por definição sociológica, não possui existência física independente; ela é uma ficção jurídica sustentada por um contrato social, gerida e operada por pessoas.


Quando se justifica uma prática discriminatória sob o argumento de que "isso é norma da empresa", oculta-se o fato de que tais diretrizes foram idealizadas, em algum momento, por indivíduos. Ou seja, o preconceito não emana de uma entidade abstrata, mas de pessoas físicas, geralmente os detentores do poder corporativo, que codificaram os seus próprios vieses na cultura organizacional sob o pretexto de "garantir o bom funcionamento" do negócio. Quem determina, de maneira velada, que indivíduos pretos, pardos e periféricos não são "pessoas de confiança" são os criadores dessas normas.


Desta forma, o preconceito deixa de ser uma agressão direta de indivíduo para indivíduo e passa a operar de forma indireta, diluída. Para compreender essa normatização invisível, recorre-se a Ellen Immergut (apud ALMEIDA, 2020):

"Em outras palavras, é no interior das regras institucionais que os indivíduos se tornam sujeitos, visto que suas ações e seus comportamentos são inseridos em um conjunto de significados previamente estabelecidos pela estrutura social. Assim, as instituições moldam o comportamento humano, tanto do ponto de vista das decisões e do cálculo racional, como dos sentimentos e preferências" (ALMEIDA, 2020, p. 39 apud IMMERGUTT, 2006, p. 161).

O racismo institucional sobrevive e legitima-se precisamente porque a responsabilidade individual do agente é transferida para a norma da instituição. Quando seguranças de um shopping ou de um supermercado adotam procedimentos de vigilância ostensiva direcionados a clientes negros sob a justificativa de "prevenção a furtos", a ordem parece vir do sistema, e não do racismo de quem o programou. Esse processo de naturalização garante a perpetuação do controle, conforme elucida Almeida (2020): 


"Isso faz com que a cultura, os padrões estéticos e as práticas de poder de um determinado grupo tornem-se o horizonte civilizatório do conjunto da sociedade. Assim, o domínio de homens brancos em instituições públicas – o legislativo, o judiciário, o ministério público, reitorias de universidades etc. – e instituições privadas – por exemplo, diretoria de empresas – depende, em primeiro lugar, da existência de regras e padrões que direta ou indiretamente dificultem a ascensão de negros e/ou mulheres, e, em segundo lugar, da inexistência de espaços em que se discuta a desigualdade racial e de gênero, naturalizando, assim, o domínio do grupo formado por homens brancos" (ALMEIDA, 2020, pp. 39-41).  

Essa higienização do debate naturaliza, portanto, a hegemonia eurocêntrica como o horizonte civilizatório universal de toda a sociedade.


5. Considerações Finais: A intersecção entre raça e classe


A análise sociológica das estruturas de opressão no Brasil exige uma superação das leituras puramente economicistas. Darcy Ribeiro (1995) argumentou que as clivagens profundas no país possuem natureza predominantemente social e de classe, observando o seguinte fenômeno de assimilação:  

"Assim é que facilmente se admite o casamento e o convívio com negros que ascendem socialmente e assumem as posturas, os maneirismos e os hábitos da classe dominante, do que com o pobre rude e grosseiro, seja ele negro, branco ou mulato, por sua discrepância social, e sua evidente marginalidade cultural" (RIBEIRO, 1995, p. 237).

Contudo, embora exista a tolerância pontual descrita por Ribeiro perante a ascensão de quem mimetiza o comportamento dominante, a realidade empírica demonstra que a raça opera como o filtro ordenador basilar da própria estrutura de classes, bloqueando a ascensão coletiva. Ignorar o componente racial e reduzir a exclusão à "pobreza genérica" legitima a falácia da meritocracia. O desmantelamento desse sistema exige não apenas o reconhecimento dos privilégios de cor, mas uma revisão radical das regras institucionais que regulam o poder e o prestígio no Brasil.  


Para reflexão:

 

6. Referências Bibliográficas

 

ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo Estrutural. São Paulo: Pólen Livros, 2020.

BOURDIEU, Pierre. A Economia das Trocas Simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1992.

BOURDIEU, Pierre. A Reprodução. Rio de Janeiro: Vozes, 2014.

HASENBALG, Carlos. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

KOWARICK, Lúcio. Trabalho e Vadiagem. São Paulo: Editora 34, 2019.

MBEMBE, Achille. Necropolítica. São Paulo: n-1 edições, 2018.

RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

RIBEIRO, João Ubaldo. Viva o Povo Brasileiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

SOUZA, Jessé. A Elite do Atraso. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2019.


[1] (KOWARICK, 2019) Citação de introdução do livro Trabalho e Vadiagem.

[2] (ALMEIDA, 2020) “No século XX, parte da antropologia constitui-se a partir do esforço de demonstrar a autonomia das culturas e a inexistência de determinações biológicas capazes de hierarquizar a cultura, a religião e os sistemas políticos das sociedades”.


Outras fontes


ONU: racismo no Brasil é ‘estrutural e institucionalizado’. Fonte: ONU: racismo no Brasil é ‘estrutural e institucionalizado’. Acesso em: 18/03/2025.

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